| Mente "enxerga"rosto por meio de caricaturas Cérebro reconhece mais facilmente caricaturas do que imagens reais do rosto. Quando uma pessoa olha para outra, está automaticamente criando uma caricatura dela, mas não por motivos satíricos: segundo psicólogos americanos, esse parece ser o processo normal pelo qual as pessoas são identificadas e armazenadas na memória. "As caricaturas colocam um problema a um psicólogo porque as pessoas dizem que elas são mais fáceis e reconhecer que fotografias", afirma Robert Mauro, 35, da Universidade de Oregom em Eugene (EUA). "A maior parte de nossas teorias de reconhecimento não leva em conta esse tipo de resposta", disse Mauro em entrevista à Folha. Alguns psicólogos criaram até uma definição para as caricaturas: são "super-retratos". "O que os caricaturistas fazem é exagerar as características de uma face que a tornam reconhecível, criando o que chamamos de super-retrato, algo ainda mais reconhecível que um verídico", declara Mauro. Ele e seu colega Michael Kubovy fizeram dois experimentos com alunos para testar essa teoria. Os detalhes estão descritos em um artigo publicado na revista especializada " Memory and Cognition ". Os dois pesquisadores usaram um kit policial de retratos falados para construir faces de homens brancos. Uma versão da mesma face com características exageradas crumpria o papel de caricatura. As faces foram construídas dentro dos parâmetros médios de homens brancos, segundo dados de estudos antropométricos. As caricaturas exageravam três traços, tornando-os maiores ou menores que a média: altura da testa, comprimento do nariz ou do queixo, criando com isso seis tipos diferentes. Em um dos experimentos eles verificaram que as caricaturas eram melhor identificadas do que as faces normais. Os alunos viam uma seqüência de cem slides, cada um por cinco segundos. Depois, viam esses cem mais duzentos outros e tinham de dizer se os rostos eram exatamente os anteriores, ou se diferiam deles. "Eles diziam que já tinham visto antes as caricaturas, quando na verdade, o que tinham visto antes eram as faces". diz Mauro. O que parece confirmar a hipótese que as pessoas codificam as faces como se fossem caricaturas. No segundo experimento, os slides eram mostrados em seqüência e aos pares. Os participantes tinham de dizer rapidamente se eram exatemente os mesmos. "Os alunos foram mais vagarosos em distinguir os estímulos quando a face precedia sua caricatura, indicando que as caricaturas são mais semelhantes à representação codificada de uma face do que o estímulo nos quais as características distintivas não demosntração de preconceito racial, está um fato que os psicólogos estudam, a "identificação transracial". Pessoas de uma etnia têm mesmo dificuldade em reconhecer as de outra. Para os psicólogos Robert Mauro e Michael Kubovy, a hipótese de que as faces são codificadas na memória como caricaturas pode ajudar a entender essa dificuldade. Para eles, pessoas com menos contato com outras etnias não desenvolvem "protótipos" de faces para ajudar na identificação. "Você está procurando as características erradas em uma face de outra raça", diz Mauro - "se um branco tem pouco contato com negros, a característica mais saliente da face do negro vai ser que ela é negre, o que é inútil para se distinguir uma face negra de outra". Com isso verificou-se que uma minoria étnica reconhece melhor as faces da maioria. "Nos EUA os negros são melhores em identificar brancos que os brancos em identificar negros", diz. Não há uma lista precisa de características que as pessoas usam para identificar as diferentes faces. O método consiste e procurar por traços distintos da média, em comparação com os "protótipos". Fonte: Ricardo Bonalume Neto Da Reportagem Local Folha de São Paulo, domingo, 11 de abril de 1993 Caderno Ciência, p. 6-12 | ||